julho 20, 2016

TU QUERES VER



A imagem do nosso abismo desce sobre nós
sempre que as sombras pairam nos nossos olhos;
sombras que dissiparam as chamas
que costumávamos consumir com os nossos corpos.

Os corpos carbonizados não alimentam os sonhos,
porque não passam de sonhos,
e o Verão já não é a mais bela canção.

Mas a terra que martela as cinzas da nossa sobrevivência
mantém-se longe de todos os medos que sopram ao nosso ouvido.

Senhoras e senhores,
chegou o fogo-pai.
Devora os temores
e daqui já não sai.

Ele quer que lhe devolvam os gemidos cósmicos,
os sorrisos atónitos
e os gritos que se aprofundam nos becos do inconsciente.

Enquanto permanecer na vontade, convidar-nos-á para suspirarmos o ar que respiramos
e envolvermo-nos com a batida da terra.


março 09, 2016

NUNCA CONTRARIEM UM PANDA



Sei quem sou,
quando juntos inventamos um reino que se dispersa no veludo
e na tua eloquência. 

O sangue que corre novo nas veias,
espalha-se pelas paredes cheias
da presença do teu âmago. 

Habitam seres na tua pele
que derrotam o fel
de tudo o resto,
para depois neste leito permanecer o cândido manifesto
dos teus lábios.

Esta noite, não quero pensar.
Deixem-me apenas perpetuar
a morte dos meus sentidos
nesta voluptuosa desordem. 




novembro 26, 2015

UMA FLOR E UM POEMA-PIPOCA


Antes daquela estrada que desce contigo,
verás que o vazio faz parte da caminhada,
porque a paixão é a primeira a desistir,
enquanto o amor reside apenas nas palavras.

Na tua inconsciência,
um suspiro é um gentil suspiro,
um retiro é um gentil retiro,
mas a força do adeus
torna-se maior que a força do aconchego.

No escuro,
- e sempre no escuro -
as tuas pernas contorcem-se em espasmos devolutos,
depois de sonhares a queda,
e nesse teu sonho, regressas ao mar lânguido do teu sufoco,
onde guardas memórias plausíveis da tua mãe.

No dia em que tudo cessar,
a vontade engolirá a noite da loucura,
sem voos tutelares,
sem histórias para relembrares,
e tudo se instalará na pujança salivar da minha voz.